




Eu é que tinha que agradecer não ter passado mais uma noite sozinho. O "talento" eu já o sabia natural, mas a vontade era genuína. Gostei e esperava repetir.
Aproveitei a oferta de Veronika e saborei o leite e o pão junto à varanda. Lá fora chovia, mas eu podia apreciar os telhados de Budapeste, já que o estúdio estava localizado no décimo andar de um edifício moderno, na parte nova da cidade. Com o café acendi um cigarro e abri a porta da varanda para respirar o ar fresco da tarde. Duchei-me e sai depois de lhe deixar uma resposta em que tentei mostrar o quanto tinha apreciado a noite e que gostaria de ser o próximo a convidar. Deixei o meu número de telemóvel e um beijo.
Só fiquei a saber na segunda-feira seguinte. Durante todo o resto do fim-de-semana foi o silêncio. Mas se estava de partida, certamente teria muitas despedidas e coisas a tratar. Deixei-me também na certeza de reencontro nos corredores diplomáticos no começar da semana de trabalho.
Quando marquei a extensão dela atendeu-me outra voz feminina. Estranhei e perguntei por Verónika e fiquei a saber que Isabel era o nome da nova secretária do "sr. embaixador". Praguejei para dentro e agradeci e de repente, o pânico.
"Na sexta-feira diz-me que todos os assuntos do embaixador têm que passar por ela e hoje já cá não está... Escondeu bem o jogo! Porque razão foi tão longe é que...", pensava eu quando senti o pânico invadir-me. Voltei a marcar o número da extensão e pedi o número de casa de Veronika. A resposta gelou-me.
- Ela não vai atender...
- Como pode estar tão segura? Mantem uma agenda privada da ex-secretária do embaixador?
- Sei porque fui informada que ela tinha um vôo no sábado de manhã.
- E quem a informou disso?
- A própria.
- E não a informou também para onde era esse vôo, não?
Deixou-me em silêncio o tempo suficiente para me fazer pensar que tanto azedume da minha parte não mereceriam uma resposta minha. Acabou por me responder com um sincero e curto "não".
Que marcou toda a minha ignorância sobre Veronika. Escondera bem o seu jogo. Ninguém sabia para onde nem fazer o quê. O que mostrava preocupação com "pontas de fora" para evitar "repetições". Acredito que não quisesse mais que despedir-se de Budapeste. Porquê eu? Apenas o seu primeiro contacto com o mundo que a espera fora da Hungria, seja lá onde isso fôr.
O meu comité de boas-vindas a Budapeste tinha-se despedido de mim sem dizer adeus.
FIM
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